Terça-feira, 29 de JulhoEstou na minha aldeia de verão há já cinco dias. O tempo parece parado. Aqui as horas demoram, pelo menos, duas vezes mais do que em qualquer outro sítio do planeta Terra. Para quem quiser, até se nota o Sul mítico, a França de há três ou quatro décadas atrás. De um certo modo, faz lembrar a Lisboa de hoje em dia. Ontem à noite, vi assim três velhotas sentadas num banco, três velhotas a falar de tudo e principalmente de nada, bem como fazem as Lisboetas em Alfama. Na boca tinham uma língua tão antiga como as pedras da praça principal da aldeia, uma língua mais próxima do latim do que o francês. Eu quis ficar ao pé delas, ou escondido debaixo do banco, ou disfarçado, quis ser uma pedra. E que isto deve ajudar muito para compreender o Ser Humano. Então gostaria muito de ser uma pedra das arcadas, por cima da esplanada do Café, e assim, poderia saber tudo sobre tudo aquilo que faz com que um homem seja homem (ou mulher aliás). Claro que este meu projecto, além de ser impossível quase, seria reprimido pela Igreja, que fica em frente da esplanada. Pois, a curiosidade é mau defeito! Mas não vejo, neste momento, melhor oportunidade para que consiga a matéria necessária à escrita de um livro sobre o Homem.
De facto, decidi aproveitar estes dias de liberdade absoluta (não tenho outra coisa para fazer por começar a trabalhar so no fim desta semana) para avançar no meu romance. Por outro lado, não tenho tempo para perder! Amanhã à noite, deve chegar o Max... supostamente por um dia apenas, mas com este safado, nunca se sabe nada daquilo que vai acontecer. A minha sorte, no entanto, é que desta vez lhe vai ser difícil arranjar uma brasileira, aqui, no meio do nada... Enfim, vamos ver! E capaz!
Falando de sorte, devo dizer que a minha estrela continua a cuidar de mim (a não ser que sejam os irmãos). Depois de ter arranjado um estágio, também consegui um quarto até ao final de Dezembro. Mas também devo confessar que estou com saudade de Lisboa pá!, da nossa Voz, do riso da Kátia, das anedotas da Dani, da loucura da Clau, dos parvoices da Madame e da rumba da "dreadlocks the time is now"! Até estou com pressa de saber a nova convivência que vai haver na nossa "casa de prazer", sim, gostaria de descobrir aquilo que é a vida com um Marquinhos e uma Teresa, ali do outro lado da parede! Todavia, fico contente por ficar uns meses na minha cidade. Em primeiro lugar, porque é sempre preciso aproveitar o momento presente quando se dá, e também porque acho que vai ser muito bom. Enfim, porque assim que eu voltar, vou estar cheio de uma nova energia.
Antes de acabar esta carta, tenho de vos contar o festival de poesia em que estive na semana passada. A aldeia era giríssima (é perto de Montpellier, e chama-se Lodève). Convidaram cerca de 50 poetas, principalmente dos países mediterrâneo, mas houve um português, perdido quase nessa multidão de escritores. Chama-se Daniel Jonas e é do Porto. Logo que vi o seu nome no programa, decidi ver a leitura que ia fazer dos seus poemas. E adorei, adorei mesmo! Portanto, falei com ele (ficou surprendido por ter encontrado um francês que falava a sua língua) e disse-me que já foi traduzido em inglês e em polaco (!?) mas nunca em francês. Foi assim que comecei a pensar em publicá-lo. A ver. Espero que possa falar mais sobre isso em breve...
Ora bem, vou deixar aqui esta carta, sem me esquecer que continuo cheio de amor por vocês!
Saudades
Des bisous
É tarde que te canto ou cedo foste
Tão surda quanto eu mudo e não tão mudo
Que tu tão cedo ida e tu tão toste
No teu capricho em mim mudasses tudo?
Mudou-se o amor em nada, nada que era.
Um fogo calcinou a sede, é triste.
Arguir: p’ra quê? Dizer: o quê? se insiste
A dor que nada aclara e tudo erra...
Partiste, ó elo fraco desta algema,
Ou se da vide a imagem mais te adivinha
Nem és abraço ou elo, és gavinha,
Zurrapa que hás-de ser p’ra outro Baco.
Pois parte lá, o verme outro buraco
Na morte apenas vê, nenhum dilema.
DANIEL JONAS, Sonótonovel
Saudades
Des bisous
É tarde que te canto ou cedo foste
Tão surda quanto eu mudo e não tão mudo
Que tu tão cedo ida e tu tão toste
No teu capricho em mim mudasses tudo?
Mudou-se o amor em nada, nada que era.
Um fogo calcinou a sede, é triste.
Arguir: p’ra quê? Dizer: o quê? se insiste
A dor que nada aclara e tudo erra...
Partiste, ó elo fraco desta algema,
Ou se da vide a imagem mais te adivinha
Nem és abraço ou elo, és gavinha,
Zurrapa que hás-de ser p’ra outro Baco.
Pois parte lá, o verme outro buraco
Na morte apenas vê, nenhum dilema.
DANIEL JONAS, Sonótonovel
